Sob o Véu
O Minotauro deixou Creta. Habita becos, viadutos e gabinetes. Alimenta-se de cifras, de silêncio e do medo que se aprende nas esquinas. Onde o ouro promete, a carne sangra; onde a lei sussurra, o pobre berra; e onde o poder levita, a vida cai — breve como um fósforo no vento.
Esta canção nasce do choque entre mito e concreto. O labirinto moderno não é de pedra: é de juros, grades e mapas que não mostram saídas. Nele, a periferia é altar e arena; vidas ofertadas para engordar banquetes invisíveis. A fera tem muitos nomes, mas um só apetite.
O refrão é faca e espelho: a besta mora em nós, e cada fio de Ariadne é também corda bamba sobre o abismo. Que a música ilumine frestas, exponha corredores secretos, denuncie conluios de sombras. E que, ao final, reste um fio de coragem — o bastante para atravessar.
Letra
A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. O Deus da Democracia Ofertou aos governantes Para ser compartilhado Um touro branco de chifres dourados Pois a riqueza foi uma conquista do povo com o seu trabalho. Tiranos depravados, aliados à burguesia Desossaram o belo touro, jogaram os ossos ao povo e roubaram os bons pedaços. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. Dessa maldita união, governo, elite e religião Nasceram filhos desesperados, cansados, com fome, explorados Vivendo em escravidão. Para esconder a vergonha e ficar longe do povo Criaram um labirinto chamado periferia. Lá jovens são devorados, dia e noite, noite e dia e o sangue sacrificado engorda a burguesia. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. É quase impossível sair do labirinto Misturados ao caos e a miséria o povo vive oprimido Entre crime e polícia, entre as vielas, perdido. São órfãos da política, bastardos da corrupção Procurando um fio de Ariadne que lhes quebre a maldição. São Guerreiros, valentes e heróis, as pessoas que vivem ali Homens, mulheres, crianças, tombam apenas por existir E o terror de ser devorado se perpetua sem fim. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. Desejo aos governantes e a elite infame! O Sétimo círculo do inferno de Dante Local destinado aos perversos, guardado pelo Minotauro! Que sofram no Rio flegetonte num banho fervente de sangue. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera.