Acervo vivo

Gabinete
do Véu

Nem tudo que nasce no Véu quer ser música. Algumas coisas exigem matéria.

Reuni aqui, para você, sons, palavras, imagens, vestígios e obras nascidos do universo simbólico de Véu Negro. Cada peça é uma passagem entre matéria, memória, sombra e transformação.

Explore as peças do Gabinete. Algumas se revelam aqui mesmo; outras são portais para diferentes territórios do Véu. O acervo crescerá aos poucos, sem pressa, como tudo que precisa ganhar forma antes de traduzir sentido.

Entre sem pressa. Talvez alguma peça reconheça algo em você.

Aldo Campos — Véu Negro

Peças do Gabinete

Clique em cada objeto para ouvir, ler, ver ou atravessar.

Gramofone do Gabinete do Véu
GAB-001

Gramofone

O som como passagem. Uma escuta breve antes de seguir para o acervo musical.

Ouvir
Capa do conto E se eu pudesse voar
GAB-002

E se eu pudesse voar

Um conto sobre sonho, violência e transformação.

Ler
Livro antigo da Caverna do Oráculo
GAB-003

Caverna do Oráculo

Um rito, enigmas e cinco perguntas. A Esfinge Caveira guarda a passagem.

Atravesse o portal
Imagem do poema Fotossíntese
GAB-004

Fotossíntese

Sobre raízes, tempo e transformação.

Ler
Imagem do poema Preciso
GAB-005

Preciso

Um poema sobre morrer de amor.

Ler
Quadro Nigredo
GAB-006

Nigredo

Matéria em decomposição simbólica. Escuridão como estágio, não como destino.

Visualizar
Portal ou espelho para os vídeos de Véu Negro
GAB-007

Portal de Imagens

Clipes, visualizers e fragmentos em movimento. Um espelho aberto para outra dimensão do Véu.

Assistir
Caixa Maldición del Amor Perdido
GAB-008

Caixa — Maldición del Amor Perdido

O que você guardaria aqui?

Examinar
O Gabinete permanece aberto. Novos vestígios surgirão.
Gramofone do Gabinete
GAB-001 · Som

Gramofone

Uma pequena escuta dentro do Gabinete. Para saber tudo sobre a discografia do Véu, atravesse para a página de músicas.

Explorar músicas
Capa do conto E se eu pudesse voar
GAB-002 · Conto

E Se Eu Pudesse Voar?

Nota de conteúdo: este conto aborda violência e abuso contra uma criança. A leitura pode ser sensível para algumas pessoas.

A vida passa ligeiro, cada vez mais ligeiro. Minha madrinha diz que é porque andamos sempre pelo mesmo caminho, fazemos sempre as mesmas coisas, passamos por tudo e olhamos sem enxergar. Já ao anoitecer, nem nos lembramos como foi o dia, dormimos, acordamos e começamos tudo de novo. Ela é também minha professora e me deu um livro sobre borboletas.

Outros aqui acreditam piamente que o destino já está selado, hermeticamente selado, não adianta querer escrever a sua própria história. Os caminhos, as trilhas, os atalhos já estão lá marcados na eternidade como um percurso definido em um mapa.

Eu nunca acreditei muito nisso. Sempre quis fazer a minha própria trama. Às vezes, minha imaginação voa tentando enxergar outros domínios, jardins mais floridos, novos perfumes…

Mas não vou negar. Eu cresci com essa tal espada do destino sobre a minha cabeça. Em vários momentos pensei que Deus não tinha escrito uma boa história para mim. Somos onze filhos dividindo com os pais uma casa simples de pau a pique, em um pequeno pedaço de terra na zona rural do sertão nordestino.

Meu pai não consegue produzir o suficiente para nosso sustento. Minha mãe ajuda na roça e no que pode. Apenas os três filhos mais jovens ainda estudam, eu e mais dois. Os outros já estão na labuta com o pai, rezando para que neste ano a água finalmente caia do céu. Eles não reclamam da vida, é o caminho que reconhecem. Mas eu não. Quero estudar, aprender e voar mundo afora.

Quando as coisas estão muito difíceis, imagino que isso tudo é como um casulo, uma fase de amadurecimento, como está escrito no livro que ganhei. Assim eu deixo meus sonhos vivos e consigo levar alegria aonde vou. Minha mãe sempre diz que sou a luz da família, única filha mulher, agora com nove anos.

Mas, mesmo seco e castigado, o sertão tem sua beleza e eu sempre dou um jeito de explorar os arredores e observar o que mais admiro: a força das flores que teimam em brotar do solo quase estéril. Nessas horas, a realidade parece se distanciar um pouco de mim.

Outro dia subi por uma trilha afastada que termina no alto de um morro, cuja formação rochosa se ergue muito acima do chão e forma um enorme despenhadeiro. Quando chegava ao local, ainda tinha um último restinho de sol. Apressei o passo, queria contemplar o mundo inteiro.

Era um local bonito com uma vegetação densa e várias espécies de flores que eu ainda não conhecia. Faltando poucos metros para o ponto mais alto, dei de frente com três meninos. Eles eram mais velhos do que eu, mas ainda traziam no rosto traços de uma certa inocência dos moleques típicos do lugar. Sorri, mas senti o peso de olhares estranhos.

De repente um baque forte, e caí. Ainda zonza, vi minhas roupas serem arrancadas com violência, tudo escureceu. Quando acordei, olhei em volta, sozinha, assustada, vi os três se afastarem arrumando as roupas e rindo alto, sem nem olhar para trás. Eu não sabia muito bem o que tinha acontecido, estava com muitas dores e quase desacordada, jogada no meio da vegetação. Sentia o perfume das flores laceradas na angústia do ataque e uma estranha metamorfose apoderar-se de mim.

Encolhi-me o mais que pude, teci com os braços um casulo em volta de meu corpo pequeno e nu, me protegendo da noite fria que caía. Entre estranhos sonhos e calafrios, fiquei ali, quieta, até finalmente amanhecer, crisálida, com a vida por um fio.

O sereno havia endurecido a minha pele. Abri os olhos lentamente e com esforço profundo rompi o casulo. Os raios de sol tocaram minhas asas ainda frágeis, que foram se abrindo com o calor forte, asas lindas como eu sempre sonhei. Usei as últimas energias que me restavam e levantei, andei lentamente tentando me acostumar com aquele corpo transmudado, fui até a beira do precipício e voei.

Aldo Campos

Salvador – BA, 01.02.2017

Ilustração do poema Fotossíntese
GAB-004 · Poema

Fotossíntese

Acolhe-me com teu carinho
acaricia minha pele com tuas mãos
suaves ao vento da tarde.

Fala-me dos teus conselhos
testemunhos do tempo em contemplação
gravados nos veios do teu corpo.

Ensina-me a tua luta
a força que sorve da terra
enquanto resiste incansável a cada refrega.

Dai-me sabedoria
para criar raízes nos corações
buscar o que há de bom em cada ser.

Ajuda-me a transformar tudo em fruto
em folhas verdes de esperança
a fazer uma fotossíntese da minh’alma.

Aldo Campos

Ilustração do poema Preciso
GAB-005 · Poema

Preciso

Sinto falta de morrer de amor
Não é morrer morrido
Nem morrer matado
É esvanecer em teus abraços.

Sinto falta de morrer de amor
Não de saudade ou solidão
Mas por faltar o coração
ao toque leve de tua mão.

Sinto falta de morrer de amor
Não pelas mãos da escuridão
E sim por ver o mundo parar
se me envolves com teu olhar.

Sinto falta de morrer de amor
Mas esse é um amor tão preciso
Que eu até morreria mesmo
Se ainda estivesse vivo.

Aldo Campos

Salvador – BA, 18.08.2011

Quadro Nigredo
GAB-006 · Obra visual

Nigredo

Nigredo é aqui tratada como imagem de decomposição, mergulho e transformação. A obra poderá receber depois ficha técnica, dimensões, materiais, ano e um texto curatorial curto.

Caixa Maldición del Amor Perdido
GAB-008 · Objeto

Caixa — Maldición del Amor Perdido

Uma peça-objeto ligada ao universo visual e simbólico de “Maldición del Amor Perdido”. Este espaço poderá receber várias fotos, detalhes, materiais, processo de criação e a relação da peça com a música.