Sob o Véu
“Minotauro” nasceu de uma experiência real. Um dia, entrei por engano em uma comunidade que não conhecia e, tentando encontrar a saída, fui me aprofundando por becos e vielas que pareciam levar sempre a outros becos e outras vielas.
Havia tensão naquele lugar. Casas fechadas, olhares atentos, medo da polícia, medo do crime. E havia também o meu próprio medo, crescendo à medida que eu percebia que já não sabia voltar.
Foi ali que o labirinto de Creta apareceu para mim de outra forma.
O Minotauro deixou de ser apenas a criatura do mito e passou a representar forças que aprisionam, intimidam e se alimentam da vulnerabilidade humana. O labirinto já não era feito de pedra, mas de desigualdade, violência, silêncio e caminhos que parecem não oferecer saída.
Mas naquele mesmo labirinto encontrei pessoas que me ajudaram. Gente comum que indicou o caminho e me permitiu sair.
Talvez por isso eu veja esta música como algo maior do que uma história sobre a fera.
Ela é também sobre o labirinto, sobre quem é obrigado a viver dentro dele e sobre os fios de Ariadne que ainda aparecem onde menos esperamos.
Letra
A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. O Deus da Democracia Ofertou aos governantes Para ser compartilhado Um touro branco de chifres dourados Pois a riqueza foi uma conquista do povo com o seu trabalho. Tiranos depravados, aliados à burguesia Desossaram o belo touro, jogaram os ossos ao povo e roubaram os bons pedaços. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. Dessa maldita união, governo, elite e religião Nasceram filhos desesperados, cansados, com fome, explorados Vivendo em escravidão. Para esconder a vergonha e ficar longe do povo Criaram um labirinto chamado periferia. Lá jovens são devorados, dia e noite, noite e dia e o sangue sacrificado engorda a burguesia. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. É quase impossível sair do labirinto Misturados ao caos e a miséria o povo vive oprimido Entre crime e polícia, entre as vielas, perdido. São órfãos da política, bastardos da corrupção Procurando um fio de Ariadne que lhes quebre a maldição. São Guerreiros, valentes e heróis, as pessoas que vivem ali Homens, mulheres, crianças, tombam apenas por existir E o terror de ser devorado se perpetua sem fim. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. Desejo aos governantes e a elite infame! O Sétimo círculo do inferno de Dante Local destinado aos perversos, guardado pelo Minotauro! Que sofram no Rio flegetonte num banho fervente de sangue. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera. A fera dentro do homem. O homem dentro da fera. A cobiça devora a alma. A morte... só lhe espera.